BHAKTI YOGA
Ashtanga Mishra Bhakti – por Goura Nataraj Das
Este texto foi escrito em 2003 dentro de reflexões que me ocuparam durante aquela época. Está situado nas minhas discussões sobre o Vaishnavismo e o Yoga.
Nos últimos meses tenho dedicado uma considerável parte do meu tempo ao estudo e a prática do ashtanga yoga, o yoga de oito partes (angas) formulado no célebre Yoga-Sutra de Patanjali (séc.IIId.C). Seu primeiro aforisma, yogas citta vrtthi nirodhah – yoga é a cessação das alterações mentais – já demonstra claramente sua ligação com a tradição védica e de fato Srila Prabhupada confirma isto em numerosas citações dos sutras em seus comentários.
A prática regulada de restrições pelas quais a pessoa gradualmente se cura da doença do materialismo (vaidhi-bhakti) é brilhantemente descrita por Srila Prabhupada no comentário sobre o verso 59 do segundo capítulo da Bhagavad Gita onde ele faz uma comparação entre o estado são e o estado doentio da entidade viva citando explicitamente o astanga-yoga como um método naturalmente inferior e destinado a elevar o praticante ao estágio de lembrança constante da beleza de Sri Krishna (raganuga-bhakti).
“A menos que se esteja situado transcendentalmente, não é possível parar com o gozo dos sentidos. O processo de restrição do gozo dos sentidos através de regras e regulações é assim como restringir uma pessoa doente de certos tipos de alimentos. O paciente, entretanto, não gosta de tais restrições nem perde o desejo de saborear alimentos. Similarmente, a restrição dos sentidos através de algum processo espiritual como a astanga yoga, a qual compreende: yama, niyama, asana, pranayama, dharana, dhyana etc., é recomendada para as pessoas menos inteligentes que não possuem conhecimento superior. Mas aquele que saboreou a beleza do Supremo Senhor Krishna, no decorrer de seu avanço em consciência de Krishna, não tem mais o desejo de saborear coisas materiais mortas. Portanto, as restrições existem para os neófitos menos inteligentes no avanço espiritual da vida, mas tais restrições somente são boas até a pessoa ter um gosto pela consciência de Krishna. Quando alguém é realmente consciente de Krishna, ele automaticamente perde o gosto por coisas insípidas.”
Minha intenção neste ensaio se resume a apresentar aos devotos alguns princípios astangis que podem ser incorporados a prática de bhakti e ajudar-nos a fixar a mente nos pés de lótus do Senhor Krishna para desta forma um dia conseguirmos manter a lembrança – smarana – de Sri Krishna como algo espontâneo e natural. Deste ponto em diante todas as regras são contingentes e dispensáveis. Mas até chegarmos lá não custa nada nos beneficiarmos daquilo que pode ser favorável à realização do serviço devocional.
Pramanas
A epistemologia védica, ou seja, a reflexão sobre o que é o conhecimento, os meios para alcançá-lo e os objetivos aos quais ele nos conduz, são diferentes dos quais estamos acostumados com a filosofia e ciência ocidentais e talvez seja importante descrevê-los brevemente antes de nossa exposição.
Existem três meios pelos quais o conhecimento pode ser apreendido (pramanas), eles são pratyaksa, a percepção dos sentidos; anumana, o processo indutivo e dedutivo do uso da razão; e sabda-brahma, a evidência de autoridades superiores. Nossos sentidos nos apresentam uma realidade, que pela própria limitação de seu apreendedor, é incompleta. Logo, a razão entra em cena e pretende completar as lacunas que os sentidos não conseguiram, mas ainda assim a realidade nunca é conclusiva em anumana pois existe a dependência das premissas e razões sendo difícil provar qualquer coisa com segurança. Por último podemos ouvir sobre a realidade de um conhecimento de alguém já erudito e versado no assunto. Esta audição, sabda, é reconhecida pelos Vedas como o método epistemológico por excelência.
Em qualquer ramo do saber existe um grupo de pessoas que são as autoridades no assunto e a elas devemos recorrer para sanar nossas dúvidas e conhecer o caminho que temos que trilhar. Da mesma forma, na vida espiritual existem tais sábios, grandes autoridades, que podem dizer conclusivamente a direção que devemos tomar. No entanto o estudante sério dos Vedas não é um seguidor fanático ou uma pessoa que não sabe fazer uso e reconhecer a importância dos outros métodos de apreensão da realidade. Quando o conhecimento – jnana – é recebido, o estudante deve refletir sobre ele, procurar conhecer os vários pontos de vista pelos quais pode ser compreendido, analisar como ele se aplica nas experiências do dia-à-dia e, enfim, deve interiorizá-lo e, em última análise, confirmá-lo com pratyaksa e anumana. Como George Harrison disse na introdução do Livro de Krishna – “Se existe um Deus, eu quero vê-lo”. Não podemos nos contentar com a simples audição de que ‘Krishna existe’, de que Ele reciproca em relacionamentos amorosos com Seus devotos ou de que o cantar de Seus santos nomes purifica o coração. Devemos ver Krishna, sentir o Seu amor e sentir o bálsamo de harinama. Quem se contenta com o aspecto superficial da prática espiritual “se priva da mais alta beatitude e incorre em graves perdas.” Esta é a tênue linha que separa a sabedoria da presunção, a intuição da fantasia e a clareza mental da insensatez. Também é a garantia de que o conhecimento transmitido pelo guru (jnana) venha a se transformar em realizações e sabedoria (vijnana).
Há, no entanto, o fator descendente pelo qual o conhecimento de Deus é apreendido. A Verdade Absoluta não se encontra num plano inferior ou igual ao nosso. Ela é a sustentação, a origem e a dissolução de tudo. Ou como diz o Brahma-samhita, sarva-karana-karanam, ela é a ‘causa de todas as causas’. Com isto já compreendido pode se entender facilmente a afirmação da Gita (11.53/54 – 18.55) de que é apenas por bhakti, serviço devocional, que se pode conhecer o Senhor Supremo. Yoga, jnana, karma, dhyana, vairagya, etc, nada disto pode nos conduzir ao Senhor. Ele se revela apenas àquele que desenvolveu puro amor em seu coração e realiza, deste modo, a prece do verso quinze do Sri Isopanisad com a mente pura e consciente,
hiraëmayena pätreëa
satyasyäpihitaà mukham
tat tvaà püñann apävåëu
satya-dharmäya dåñöaye
“Ó meu Senhor, sustentador de tudo o que vive (püñan), o Seu rosto (mukham) está coberto por Sua refulgência deslumbrante (hiraëmayena pätreëa). Por favor, remova esta cobertura e revele-se ao Seu devoto puro.”
Por qual motivo isto é colocado desta maneira? Por que jnana, por exemplo, não pode nos conduzir a Krishna? Bem, o próprio Senhor afirma na Gita (4.3) que a única razão pela qual ele está revelando tais verdades a Arjuna é porque este era Seu amigo e um devoto (bhakto ‘si me sakha ceti). É aceito pelos vaishnavas que sem a graça, a misericórdia de Deus não podemos avançar na compreensão de Suas qualidades e modos de ação. Logo, a fé e a devoção são princípios fortemente estabelecidos na razão e no conhecimento e não estão, ou tampouco podem estar, baseados em sentimento ou superstição. Uma verdade superior é imperativa e não subordinada à uma verdade inferior. É ela quem dita as regras de cognição pelas quais pode ser conhecida. É este simples mas ao mesmo tempo maravilhoso princípio que está por trás dos pujas, kirtanas, estudos, jejuns, parikramas e todas as outras manifestações pelas quais podemos gradualmente desenvolver nossa devoção a Sri Hari. Também é esta compreensão que irá distinguir entre um praticante sério e atento, de um fanático e sentimentalista.
Muitas vezes temos a impressão de que a apresentação de Srila Prabhupada sobre os Vedas e a realização prática de seus ensinamentos é sectária ou tendemos a achar que nossa prática é um pouco fanática e restrita. No entanto, quando começamos a estudar as outras tradições védicas observamos que Prabhupada estava realmente familiarizado e completamente a par dos outros caminhos, seus respectivos argumentos e conclusões e que nossa própria prática está calçada em tudo isto. Abhyasa, a prática, é uma condição ‘sine qua non’ tanto para um jnani, quanto para um bhakti, como para um yogi. Vairagya, renúncia, também o é. Assim como muitas outras partes da vida espiritual. Os detalhes e particularidades obviamente diferem entre as linhas mas suas características comuns são muito semelhantes. Com isto nossa apreciação do trabalho de Srila Prabhupada cresce a níveis ainda mais elevados e refinados.
Os Sutras do Yoga
Todas as seis escolas filosóficas indianas tiveram em algum momento da história seus princípios e ensinamentos condensados em aforismas, muitas vezes tão curtos quanto duas ou três palavras, que precisavam e até mesmo exigiam uma maior explicação de seu conteúdo. Tais aforismas possuiam um papel didático e eram comumente memorizados pelos estudantes. Os principais mestres e acaryas das escolas escreveram comentários, bhasyas, sobre os sutras que desta forma se tornaram o cerne teórico de cada linha.
Vamos analisar alguns trechos básicos do texto de Patanjali que é o autor do Yoga-Sutra. No livro dois, Sadhana Pada, o livro da prática, se diz que “As oito partes do yoga são yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi.” (II.29)
Toda a filosofia védica tem como objetivo Moksha, a libertação do ciclo de nascimentos e mortes, dos condicionamentos e das kleshas, misérias e sofrimentos em geral. Com Patanjali isto não é diferente. No verso anterior ele diz que pela prática do yoga ocorre purificação (ashudi kshaye), iluminação pelo conhecimento (jnanadiptih) e discernimento discriminativo (viveka).
Os alicerces para se desenvolver no yoga são yama e niyama, preceitos éticos e morais sem os quais todo avanço posterior nos outros angas (partes do yoga) é uma farsa e insustentável num longo período de tempo. Os yamas, abstinências, são ahimsa (não violência), satya (veracidade), asteya (não roubar), brahmacarya (controle da energia sexual), aparigraha (não ganância). Os niyamas, observâncias, são shauca (pureza), santosha (contentamento), tapa (austeridade), svadhyaya (estudo das escrituras) e isvara-pranidhani (rendição a Isvara).
Sem o domínio nestes campos o yogi não realiza nada. Podemos facilmente traçar um paralelo com os quatro princípios que Prabhupada instituiu na ISKCON. Eles são as causas eficientes para futuras transformações.
Depois disto vem asana, a postura que de acordo com Patanjali (II.46) deve ser firme, sthira, e sukha, confortável. Notamos que muitas vezes os devotos não conseguem permanecer muito tempo sentados cantando japa pois o corpo permanece inquieto e agitado. O muni aconselha nestes casos que ‘pela diminuição da tendência natural à intranquilidade e pela meditação sobre o infinito tem-se o domínio da postura’ (II.47). Uma prática simples mas constante de asanas pode ajudar muito a manter a saúde e trazer mais equilíbrio às energias do corpo material. Todos podem, sob a direção de um bom e sério instrutor, colher tais benefícios e utilizá-los no serviço a Krishna.
Convém estar alerta a pseudo-yogis que não possuem uma compreensão mais profunda e séria da prática e que a consideram de maneira superficial, sem base nas escrituras e sem profundidade teórica e filosófica. Não estou sugerindo que você só pratique asanas se o seu instrutor for um estrito vaishnava, mas que ao menos ele possua um bom conhecimento e esteja conectado com energias de satva-guna e com um compromisso com a vida espiritual, pois yoga sem vida espiritual é uma abstração, um contra-senso e uma perda de tempo.
O anga seguinte, pranayama, merece uma atenção maior. Sua definição se encontra no verso 49 do Livro dois como sendo o movimento de inalação e exalação e seus respectivos controles. Prana é a energia vital do universo e costuma ser identificada com o elemento do ar. Este ‘sopro vital’ também costuma ser comparado com o pneuma dos latinos. O controle do prana capacita o yogi a modificar seu metabolismo, alterar sua consciência, obter controle sobre os sentidos e junto com bhakti, devoção, alcançar o reino espiritual supremo.
“Aquele, que na hora da morte, fixar seu ar vital (pranam) entre as sobrancelhas e, pela força do yoga (yoga-balena), com a mente fixa, lembrar-se do Senhor Supremo com devoção (bhaktya-yukto), certamente alcançará a Suprema Personalidade de Deus (paraà puruñam upaiti divyam).” Gita 8.10
Prabhupada diz: “Quanto a importância de pranayama, o cantar do santo nome do Senhor e dançar em êxtase também são considerados pranayama.” (Bhag.4.23.8)
Na prática aqueles que cantam 16 voltas de japa já praticam cerca de 2 horas de pranayama diariamente. Quando cantamos nossa japa estamos impondo um ritmo à nossa respiração e se o mantivermos estaremos absorvendo o prana que está presente no ar em nossa corrente sanguínea. Não é a toa que o Brahma-muhurta é o melhor horário para práticas de meditação. São nessas horas que o ar está mais ‘carregado’ de prana. Algumas dicas úteis são manter a respiração sempre pelas narinas, inclusive durante o cantar da japa e procurar utilizar mais conscientemente este maravilhoso aparato de captação de energia que é o nosso sistema respiratório. Isto a princípio pode ser um pouco mais complicado mas tenho comprovado em minha prática, e também na de outros devotos, que os benefícios são bem maiores e facilmente perceptíveis. A japa cantada deste jeito torna-se mais meditativa. Muitas vezes cantamos num ritmo muito aleatório, respirando pela boca, ofegantes e desconcentrados.
A prática de pranayamas, de um modo geral, ajuda a apaziguar a mente e prepara-nos para os angas posteriores que já são bem mais sutis e abstratos. Coincidentemente Srila Sanatana Goswami também aconselha, no Hari-bhakti-vilasa, a execução de pranayamas antes de se cantar o Gayatri. No Kaushitaki-Upanishad (2.5) está descrito poeticamente o pranayama e a fala como nossos eternos sacrifícios aos devas;
“Quando um homem está falando, ele não pode estar respirando: este é o sacrifício da respiração para a fala. E quando um homem está respirando, ele não pode estar falando: este é o sacrifício da fala para a respiração. Estas são as eternas e imortais oferendas do homem, quer ele esteja desperto ou adormecido.”
Pratyahara significa abstração dos sentidos, ou seja, trazer os sentidos para dentro, como o faz a tartaruga, e identificar suas substâncias com a substância mental. Após isto deve-se concentrar em um ponto, dharana, e não distrair a mente. ‘Para onde quer que a mente vá, devido a sua natureza instável, traga-a de volta sob o controle do eu’. O mantra, cantado em voz alta, é um instrumento de concentração. Meu mestre espiritual, Param Gachit Maharaj, disse-me uma vez para me concentrar no som e ouvir atentamente os nomes do Senhor Supremo durante a japa. Quando tal concentração se estabelece naturalmente progredimos aos estágios superiores de dhyana, meditação, onde o foco de nossa concentração prévia se manifesta mais vividamente e ativamente, e samadhi, a absorção completa no Senhor, o objeto último de toda meditação.
Convém neste ponto lembrar a ressalva que Srila Prabhupada disse no trecho que transcrevi no início deste texto. Todos estes processos não irão revelar Krishna por eles mesmos. Krishna só se manifesta por Sua graça, Sua misericórdia. No entanto Ele, através dos Vedas (shabda-brahma) nos aconselha e nos guia e, assim como um pai preocupado e amoroso, está sempre disposto a ajudar Seus filhos que, perdidos no reino de maya, manifestam o desejo de voltar à origem de suas existências. A cada passo trilhado um yogi sincero sente (pratyaksa) a confirmação interna de sua escolha e compreende (anumana) de forma misteriosa cada vez mais sobre a realidade última do mundo, de Deus e da alma. O véu da ilusão começa a tremular para um dia cair por completo.
Om Tat Sat.
(Goura é filósofo e professor de yoga, sânscrito e meditação; participa das Bicicletadas em Curitiba e é colaborador dos Cadernos de Yoga. É mestrando de filosofia pela UFPR. souldefiance108@yahoo.com.br – para acesso a fotos visite: http://www.flickr.com/photos/72291140@N00/)
Extraido do http://www.shanta.com.br
